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Reencontrando Joana: uma releitura de Clarice Lispector 25 anos depois

Lá em 1999, quando eu tinha 20 anos, um professor da faculdade nos apresentou uma lista de escritores, tínhamos que escolher um e redigir um ensaio monográfico. Escolhi Clarice Lispector. Li aleatoriamente algumas de suas obras, entre elas Perto do Coração Selvagem.

A leitura desse livro me abalou na época. Eu me identificava com espanto e temia a solidão de Joana, envolta no olhar de incompreensão do seu entorno diante de sua maneira tão descomplexada de sentir.

O modo como Joana se expressava sobre os papéis sociais impostos, sua curiosidade em relação ao que acontece depois e seu modo de perceber o mundo me atravessavam como uma lâmina afiada. E eu me sentia covarde e encantada.

A incrível perspicácia de Clarice, que escreveu esse livro ainda tão jovem, é excepcional. Quanto a mim, eu não sabia exatamente como traduzir a avalanche de sentimentos desencadeados pelo contato com Joana. Durante o acompanhamento do trabalho, só consegui dizer ao meu professor: “Fiquei deprimida depois da leitura, mas não sei por quê”.

Outros livros da Clarice entraram na minha vida desde então, e esse ficou quietinho na lembrança esperando ser relido no momento certo.

Vinte e cinco anos depois, me senti disponível e pronta para reencontrar Joana. E entendi que, naquela época, as vias da liberdade selvagem da personagem gritavam em mim como uma advertência: que eu não contrariasse a minha natureza. Cortar minhas asas, impor-me anteolhos e freios me distanciaria cada vez mais da minha essência, essência essa que, como um coração selvagem, jamais será plenamente alcançada, mas cuja busca, por si só, define a voracidade da vida. 

Hoje percebo que a solidão de Joana, que tanto me abalou na primeira leitura, não era precisamente um fardo, ou uma sina. Pelo contrário, pode ser uma solitude libertadora quando vivida com autenticidade. E que no caminho é possível encontrar e se reconhecer em tantas outras Joanas que existem, cada uma com suas próprias buscas em tensão com as expectativas sociais. 

Ainda buscando chegar mais perto do coração selvagem da vida que anseio para mim — assumidamente livre, desprendendo-me (não sem dificuldade) de valores patriarcais, como, no meu caso, permitindo-me a não obrigação de ser monogâmica e cultivando laços autênticos de amor e liberdade — sinto-me satisfeita pelo que consegui trazer de substancial nessa trajetória, apesar das dores pelo que tive, e ainda terei, que deixar pelo caminho.

Julgava mais ou menos isso: o casamento é o fim, depois de me casar nada mais poderá me acontecer. Imagine: ter sempre uma pessoa ao lado, não conhecer a solidão. »

A amargura tomava-o então porque ele não a sentia como mulher e sua qualidade de homem tornava-se inútil e ele não podia ser outra coisa senão um homem. »

Mesmo na liberdade, quando escolhia alegre novas veredas, reconhecia-as depois. Ser livre era seguir-se afinal, e eis de novo o caminho traçado. Ela só veria o que já possuía dentro de si. Perdido pois o gosto de imaginar. »